Morte na Dinamarca
essa literatura (sueca, dinamarquesa, norueguesa e islan - desa) seja uma espécie de instrumento para retirar cadáve - res dos armários do bem-estar local. Mas tem mais: uma arte, um tom (o fundamental),umexotismo, uma notável capacidade de engendrar argumentos (há um espírito matemático subjacente) que passou para as séries televi - sivas. A do inspetor Wallander, de Henning Mankell, adaptado para o inglês da BBC por Kenneth Brannagh, não é exceção. Nem as duas séries de maior êxito fora de portas, ambas adaptadas a ce - nários americanos TheKilling e The Bridge Fizeram história. Mas o melhor éverosoriginais,de produção dinamarquesaesueco-dinamarquesa. IA sériel Terminou há pouco a segunda época de The Bridge ( Bron1Broen na Fox, com Sofia Helin, uma notável Saga Norén e Kim Bodnia), e está de novo nos ecrás a terceira de The Killing ( Forbrydelsen na AXN Black, com Sarah Lund interpretada por uma Sofie Grábøl humaníssima). Grave, grave tudo, reveja. Enquanto as séries de raiz americana repetem até à exaus - tão modelos de investigação e de personagens retirados docinema,ateledramaturgia dinamarquesa (e sueca, em Bron/Broen ) adota um tom muito mais discreto, servido por cenários e paisagens de grande realismo euro - peus, digamos ssim. Sarah Lund (Sofie Grâbøl, refe rência na interpretação de Shalcespearena Dinamarca) dirige a investigação cometendo deslizes e descurando pistas que depois retoma (reconhecendo os erros), masnãoé a heroína típica em redor de quem tudo se desenrola como nos grandes roman - ces, a galeria de personagens distribui histórias paralelas; aqui, centram-se na politica, nas veias da cumplicidade entre gente que não está habituada a perder, e na natureza da crueldade (representada pelo rapto de uma criança e por uma história antiga de outra criança as - sassinada). A economia de meios de produção não impede a intensidade. O segredo é “o tom a melodia das paisagens, a banalidade das coisas explorada até se transformar na nossa própria vida. Grave, grave tudo e reveja. e Morte na Dinamarca TERCEIRA TEMPORADA DE THE KILLING MOSTRA COMO O POLICIAL NÓRDICO CONSEGUE SER MUITO DIFERENTE DAS SÉRIES TELEVISIVAS DOS EUA. O SEGREDO ESTÁ NO TOM A islandesa Yrsa Sigurôardóttir (autora de Cinza e Poeira ) imperdível AS ESCOLHAS DE POR FRANCISCO JOSÉ VIEGAS acha que o nível razoável de crueldade e de violência do chamado policial nórdico se deve ao “défice de imaginação dos nórdicos Isso levaria à encenação de histórias criminais arrevesa - das, surpreendentes e à descoberta de cadáveres de grande qualidade. Não é malvisto. O policial nórdico desde Maj Sjõwall e Per Wahki 3 até Kallentoft ou Nesbø, passando por Stieg Larsson, é também visto como uma espécie de retrato da crise da social-democracia nórdica (que terminou no fim dos anos 80, com uma catástrofe idêntica à que atravessamos agora): no meio do paraíso, há um espfrito do mal, subterrâneo, disposto a atacar a cada instante e a re - velar “a podridão do sistema Esta leitura é correta, mas básica e situada no tempo: a maior parte dos autores nórdicos contemporâneos ultrapassou o estádio da denúncia social dos suecos Sjõwall & Wahloo, tanto como aquelas sociedades já não vivem o espfrito do estado social dos anos 70, ainda que TÍTULO THE KIWNG CANAL AXN BLACK “Sarah Lund dirige a investiga - ção cometendo deslizes e descu- . rando pistas que depois retoma (reconhecendo os erros), mas não é a heroína típica em redor de quem tudo se desenrola” . - ILE EXPOSIÇÃO Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português Desde maio que o Mu - seu Nacional de Arte Antiga apresenta esta exposição que nos devia obrigar a refletir sobre o barroco português - não como o filho menor de um movimento europeu, mas como uma forma discreta de olhar o mundo daépoca. São 130 obras. LOCAL MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA. USBOA (ATÉ 6 DE SEt) MÚSICA Festival Med O Festival Med começou por ser dedicado ape - nas à música do Mediterrâneo, mas abriu-se a outros continentes. Por mim, só vou a concertos onde possa estar a salvo de encontrões e fumos de má qualidade mas tenho muita curiosidade para ouvir a Brass Wires Orchestra, os Danças Ocultas e a guíneense Karyna Go - mes ou a israelita Ester Rada. LIVRO Jacarandá Francisco Duarte Man - gas é um dos autores que fazem parte da lista dos mais subvalorizados (injustamente) - releiam Diário deLink Oseu novo romance revisita alguns dos temas da sua obra: a guerra civil de Espanha, os anos 40,0 PortoeaGoliza, aresistênciaao regime. fltdo numa escrita sereníssima, tratando de um crime por esclarecer e de um tempo minado. A moda dos hotéis de design assusta- -me. Tenho pernoitado em alguns, por motivos pro - fissionais ou libidinosos e acho que são todos iguais, com mobiliário lkeaafingir de moderno, pequenos - almoços diet e funcionários vestidos com números pe - quenos da Zara (parecem Obersturm - bannführer de ambos os sexos). Suspeito que há uma conspiração internacional para normalizar estes estabelecimentos, onde outrora se procurava conforto. Hotéis da treta LOCAL LOULÉ (DIAS 25 A28) EDIÇÃO TEODOLITO 1 As escolhas de FRANCISCO JOSÉ VIEGAS