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Id: 24578633
Tipo de Meio: Web
Título: Tradições pascais
Publicação: Café Portugal.net
Data: 08-04-2009
Tema(s):
Câmara Municipal da Maia
Url: http://www.cafeportugal.net/pages/dossier_artigo.aspx?id=598
Texto: Ne norte a sul do país percorremos os trilhos da Páscoa. Encontrámos, viva, para além da dimensão reigiosa, uma vertente pagã.

Carla Santos, João Anjos, Sara Pelicano | quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Queimar Judas, o apóstolo denunciador, fazer das ruas rios de flores, trazer à rua procissões sem santos, dar e provar iguarias e partilhar sorrisos são algumas das tradições que entre os dias 10 e 12 de Abril se reanimam de Norte a Sul de Portugal e recriam as tradições pascais.

Das procissões à gastronomia, as gentes de Castelo de Vide envolvem-se nas celebrações da Páscoa de forma intensa. O mercado para vender o borrego, as procissões católicas e o folar em forma de lagarto são algumas das peculiaridades a ver durante os dias pascais nesta vila alentejana.

As festividades da Sexta-Feira Santa são marcadas pelo toque da sereia da Câmara Municipal de Castelo de Vide, às 15h00, assinalando a hora da morte de Cristo. O toque convida ao recolhimento até à procissão do enterro. Terminada esta religiosidade, a vila enche-se de festa, escreve Susana Machado, no âmbito da dissertação de mestrado em Turismo pela Universidade de Évora.

O sábado de Aleluia começa agitado frente à Matriz. Os pastores aguardam que os rebanhos sejam benzidos para depois os venderem, anunciando tradições gastronómicas, com origens no judaísmo. A Aleluia é comemorada à noite, pelas 23h00, num ritual pagão que coloca na rua novos e velhos a festejar a alegria com chocalhos, guizos e sinos. Hoje em dia não são apenas os mais novos que estão apetrechados com chocalhos, mas gente de todas as idades e de toda a parte do país e até mesmo do estrangeiro. Após o aparecimento da Aleluia, todos seguem com os seus chocalhos, a Banda União Artística pelas ruas de Castelo de Vide, explica Susana Machado.

A Ressurreição de Cristo, no Domingo, é marcada pela Festa das Flores, que resulta de um protocolo, com mais de 400 anos, entre a Câmara Municipal e a Paróquia. Neste dia mestres de ofícios, entidades e associações locais, incluindo a Câmara partem da Matriz numa procissão, onde o mais jovem dos vereadores quem transporta o estandarte do Município.

Páscoa gastronómica

Nesta altura o borrego já foi morto e preparado de acordo com receitas que nasceram das mãos das senhoras mais idosas da família. Pratos como sarapatel e ensopado servem-se no Domingo, seguindo-se os bolos da festa: queijadas e folares. Estes assumem formas de lagartos decorados com amêndoas brancas e com um ovo cozido na boca. Faz parte da tradição nesta altura festiva os padrinhos oferecerem aos afilhados as amêndoas, ou seja, oferecem um folar, refere a investigadora. Quanto ao borrego, tudo é aproveitado. A pele é vendida a negociantes de curtumes, enquanto o sangue serve para fazer o sarapatel, um prato confeccionado com as vísceras do animal e sangue cozido. Susana Machado refere que estas tradições podem ter origens judaicas, segundo descrições de costumes semelhantes no Livro do Exôdo (12, 1-13).

Na vila algarvia de São Brás de Alportel, o domingo de Páscoa assinala-se com a Festa das Tochas Floridas. A procissão sem santos leva à rua flores, às varandas colchas e nas mãos dos homens tochas. Uma feira de doçaria tradicional decorre todo o dia para adoçar a boca dos que nestes dias por ali assistem às tradições de um Portugal profundo.

Ressuscitou como disse! Aleluia! Aleluia! Aleluia. Com este grito de alegria saem às ruas de São Brás de Alportel centenas de pessoas que empunham tochas floridas para comemorar a Ressurreição de Cristo, no domingo de Páscoa. O percurso da procissão está pintado com flores, que decoram as ruas numa extensão de um quilómetro. No total são usadas três toneladas de flores como alecrim, rosmaninho, alfazema e flores campestres. As colchas brancas e vermelhas estendem-se nas varandas para ver a procissão passar.

As normas litúrgicas dizem que esta procissão será feita logo de manhã antes da Missa ao romper da aurora, para recordar as três Marias que foram ao sepulcro ao nascer do sol e encontraram o túmulo vazio.

No Largo de São Sebastião, logo pela manhã, a feira de produtos tradicionais do sotavento algarvio coloca ao alcance de turistas e habitantes folares, amêndoas tenras de São Brás, doces à base de frutos secos, como figo, amêndoa e alfarroba.

Trás-os-Montes: Montalegre queima Judas

A Páscoa em Montalegre é marcada pela queima do Judas, no dia 11 de Abril. As inscrições para participação estão abertas até ao dia 10 de Abril.

A vila transmontana de Montalegre enche-se, dia 11 de Abril, de toscos bonecos que são imolados num auto-de-fé popular. A Queima de Judas apresenta-se com uma sátira à abstinência quaresmal e serve para castigar o apóstolo que serviu de bode expiatório dos malefícios da obrigatória frugalidade da Quaresma, explica a autarquia local, em comunicado de imprensa.

O Judas pode ser destruído pelo fogo, pela espada, pelo apedrejamento, pelo afogamento e pelo enterramento. Até as tradicionais bombinhas de Carnaval são permitidas.

A participação está aberta a pessoas agrupadas por bairros, Instituições e Associações do concelho de Montalegre. As inscrições devem ser entregues até às 16h do próximo dia 10 de Abril na Divisão Sócio Cultural da Câmara Municipal de Montalegre.

Os primórdios das festividades do Espírito Santo remontam ao século XIV ou XV, supondo-se uma origem ligada a Isabel de Aragão (conhecida como Rainha Santa Isabel), na vila de Alenquer. A celebração terá sido, depois, levada para os Açores, com os primeiros povoadores e, embora tenham perdido fulgor no continente, mantêm um cunho de grande devoção naquele arquipélago atlântico. O culto do Divino Espírito Santo (com uma vertente pagã e festiva) é um traço que une os vários municípios açorianos.

As festividades demonstram, hoje, o espírito solidário dos açorianos, juntando todos em redor da mesa. Os bodos (ofertas em géneros), a pobres, velhos e doentes, tiveram uma grande importância ao longo dos séculos, mas ultimamente, a tradição tem-se formalizado, tendo este tipo de doação caído em desuso.

Os Festejos: Coroações e Impérios

As Coroações resultam essencialmente de promessas individuais e envolvem os Mordomos, pessoas sorteadas aleatoriamente, a quem compete a coordenação da recolha de fundos (visitas) para a festa coordenando, também, a sua realização. São considerados a autoridade suprema da festa. A cerimónia da Coroação envolve ainda os emblemas do Espírito Santo: duas Coroas, três estandartes e um espadim. É no domingo que é realizada a Coroação, que envolve duas crianças, escolhidas tipicamente entre os filhos do Mordomo. Faz-se então um cortejo, integrando-se o Mordomo no fim do mesmo, ao som de uma folia, que pode ser composta por quatro tocadores/cantadores ou por uma banda filarmónica.

Os Impérios são estruturados em torno de um conjunto de distribuições denominadas bolos. Têm lugar aos domingos, segunda-feira de Pentecostes e domingo da Trindade. Realizam-se a partir da Capela do espírito Santo, ou Império (onde as Coroas ficam expostas). É ainda feito um arraial, com bandas filarmónicas, arrematações, comida e bebida.

A importante componente alimentar

As Coroações têm também uma componente alimentar importante. É (também) para a preparação de vários alimentos caros e demorados de confeccionar que o Mordomo recebe as visitas. Existe o jantar das Coroações, realizado ao almoço, que é uma grande refeição em que se servem Sopas do Espírito Santo (carne de bovino e caldo com fatias de pão), carne assada, pão de massa sovada, arroz doce e vinho. Antigamente, durante as Coroações, faziam-se doações às 20 ou 30 casas mais pobres de cada freguesia. No dias de hoje, essas doações estão limitadas à distribuição porta a porta das Sopas do Espírito Santo, em casas de pessoas doentes ou mais carenciadas.

Páscoa em português é, à mesa falando, sinónimo de folar. De Norte a Sul do país, sob o mesmo nome, o folar ganha diversas formas e conta diferentes histórias.

Doce, com formas de animais ou redondo, o folar é pão doce nas terras do norte e empenadinhas na Covilhã. A tradição gastronómica mantém-se de Norte a Sul do país com ligeiras diferenças.

A Norte come-se o folar doce e o folar gordo. Contudo, em algumas localidades como Vila do Conde e na Maia, este símbolo pascal ganha o nome de pão-doce ou mesmo broinhas. Erva-doce, ovos, leite, farinha, manteiga, açúcar e sal são alguns dos ingredientes que dão vida ao folar minhoto. Ainda no Minho, este produto gastronómico é denominado de borrachos, que são fritos que levam ovos, açúcar, pão ralado e canela.

Na região centro a receita apresenta mudanças. Por estas terras, o folar é um bolo de massa seca, doce, ligada com farinha de trigo, ovos, leite, azeite, banha ou pingue, açúcar e fermento, e condimentado com canela e erva-doce. É depois encimado, conforme o seu tamanho, por um ou vários ovos cozidos inteiros e em certos lugares tingidos.No Alto Alentejo os animais são as formas mais utilizadas. Aqui o folar pode ser um borrego, um lagarto, um pintainho e um pombo.

Diz-se entre a comunidade mais idosa em Matosinhos que Na Semana de Ramos, lava os teus panos. Na Semana da Paixão, lavarás ou não. É um ditado que explana o ritual da limpeza geral das casas por altura da Páscoa. Desde os vidros, persianas, chaminés cortinas e tapetes. Tudo é bem limpo durante a semana santa para receber o Compasso no Domingo de Páscoa. À porta de casa coloca-se flores ou ervas, como sinal positivo para receber a visita pascal.

Aquando da chegada do crucifixo, está a mesa posta com o típico pão-de-ló, bola de carne, folar (com um ovo no interior) vinho do Porto, licor, fruta entre outras iguarias para dar de comer a quem acompanha a cruz de Cristo. Na mesa pode estar, também, um copo de água para ser benzido pelo padre e o envelope do dinheiro destinado à paróquia. Enquanto o compasso petisca as iguarias pascais a cruz é depositada numa almofada bordada para o efeito, hábito registado em apenas algumas casas.

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